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Fico imensamente feliz por estar hoje, aqui, podendo abrir esse 2º Simpósio do Rio de Janeiro e 1º Encontro Internacional de Investigação no campo da psicopedagogia.
Feliz por ser o segundo, depois de oito anos do primeiro....e por estar novamente com Sara Pain e tantos colegas nos acompanharam aqui na PUC, instituição que, mais uma vez,está nos acolhendo e nos apoiando, juntamente com o Ceperj, nessa realização empunhada pelo Tekoa, juntamente com um novo parceiro o JER, grupo de pesquisa do Departamento de Educação da PUC-Rio, sob coordenação da Apparecida Mamede, minha querida companheira nessa empreitada. Fico feliz de rever colegas de tanto tempo juntos no esforço de investigação teórico-prática, ex-alunos, alunos atuais e novas carinhas no auditório... todos que, reunidos num grande grupo, num somatório de esforços, permitem que se realize esse segundo simpósio e assim, de se fazer história, já que se abre a possibilidade de se dar continuidade às nossas reflexões, dúvidas, procura de soluções teóricas, metodológicas, nesse caminho árduo que exige desejo, disciplina e trabalho para se fundar e fundamentar consistentemente um campo de conhecimento.
No que diz respeito ao meu coração e vontade, sou teimosa, muitos que me conhecem bem o sabem, a minha conduta de determinação às vezes férrea no sentido da disciplina e do esforço, existe porque nesse caminho tem um desejo e persigo minha intuição procurando calçá-las com estudo e prática; assim vou seguindo honestamente com minhas ansiedades, medos e vontades a serviço dessa tarefa de investigar a psicopedagogia e de tentar estruturá-la, organizá-la sobretudo mais epistemologicamente, com todos os percalços dessa árdua tarefa.
Falando-se em história, tive a oportunidade, dessa vez, de rever os vídeos do 1º simpósio de oito anos atrás, que realmente me levaram a esse sentimento de estarmos fazendo história, nesse percurso e nessa teimosia de investigar e pesquisar o domínio de conhecimento da psicopedagogia e, dada à riqueza do que pude rever, procurei estudar e re-assimilar alguns conteúdos que permanecem importantes .
Assistindo aos vídeos pude colher algumas pérolas dos discursos feitos, entre as quais algumas palavras de Leandro Konder em sua bela e divertida interlocução histórica na palestra de Sara Pain “Inteligência, Ignorância e Pensamento”. Ao evocar suas palavras proferidas naquela ocasião o faço presente, aqui conosco, nessa abertura (mágica da memória, do discurso e da comunicação humanos) já que seu discurso me pareceu "cair feito uma luva" para evocar o espírito desse nosso encontro. Depois de identificar nas idéias de Sara Pain um espírito renascentista, sua interlocução aborda dois pensadores renascentistas anteriores ao descobrimento da América, pelos quais ele parece ter muito apreço, pensadores ligados ao pensamento medieval, mas muito inovadores, já que demonstram pensamentos que apontam para a passagem de um discurso medieval para um discurso renascentista. Um deles Nicolau de Cusa, cardeal da Igreja, escrevia em forma de diálogos, um deles intitulado “A Douta ignorância”, onde ele, segundo Konde desenvolve uma teoria do pensamento que antecipa Sara Pain quando diz que é preciso que o pensamento seja auto-crítico, já que o reconhecimento do que eu não sei que me permite avançar. E diz que, quando eu atribuo a meu pensamento um conteúdo positivo demasiadamente forte, eu me detenho nesse saber cristalizado e ele em vez de me ajudar a avançar ele estanca a circulação do meu conhecimento.
Em relação a nossa percepção de infinito, Leandro lembra que Nicolau de Cusa diz que o infinito a que temos acesso é o infinito humanizado, pois não temos acesso ao infinito efetivo que existe em Deus. Nicolau de Cusa pega um problema teológico e dá a ele um uso humano muito original: Assim como nós não temos acesso à perfeição divina, temos que aprender a lidar com nossa imperfeição, e como nós não podemos superar todas as nossas contradições, teremos sempre contradições em nosso universo, temos então que aprender a administrá-las o mais humanamente possível. Em outro diálogo chamado “O Deus oculto” (feito no final do séc XIII ) Nicolau de Cusa levanta a questão: “Porque Deus não pode se manifestar abertamente a todos nós? E responde: Porque Deus tem que respeitar a criação dele que é a criação da nossa liberdade; e que para que nossa liberdade seja efetiva, temos que percorrer um caminho nosso, que tem a ver com um compromisso com Deus, mas um compromisso que é humano. Temos que descobrir Deus por nossa conta. E isso não é um problema de Deus, é um problema nosso, um desafio que se coloca a nós, humanos.
Nessa linha de pensamento Leandro nos dá outras pérolas citando Pico de la Mirandola , que não era eclesiástico, mas um príncipe com boas relações com a Igreja. Diz-se que ele tinha uma enorme ansiedade de compreender mais, saber mais... e desenvolveu umas teses que levou para o Conselho dos Cardeais, que as aceitou “Claro você é nosso amigo”
As teses foram então dadas para um Cardeal ler e ele disse ao Conselho que se tratavam de “pura heresia”. Assim não temos acesso as suas teses, pois parece que foram destruídas, mas temos acesso ao discurso introdutório dessas teses, que foi editado mesmo em português, cujo título é "Discurso sobre a dignidade do homem”, onde mais uma vez Pico de la Mirandola , como fez Nicolau de Cusa, pega um argumento teológico medieval e o transforma em argumento renascentista. Partindo da idéia que a teologia consagrou o anjo como uma figura divina, os anjos são perfeitos e há uma inequívoca superioridade dos anjos sobre os seres humanos, mas, diz Pico de la Mirandola , nós podemos nos aperfeiçoar sempre. Trazendo-nos habilmente assim a dimensão histórica. Coisa que anjo não pode; sendo ele perfeito, não pode se aperfeiçoar, não pode viver essa experiência humana maravilhosa que nos coloca numa posição, de certo modo, de superioridade em relação aos anjos.
É o espírito de auto-crítica e a consciência de nossa eterna imperfeição que nos mune de teimosia para a constante busca de aperfeiçoamento que, por sua vez, nos remete a uma constante investigação. Vejo todos nós, nesse tipo de encontro desse fim de semana, como humanos tentando cumprir o seu destino.
Gostaria de lembrar que fizeram parte do 1 o Simpósio exposições de Sara Pain, Leandro Konder, Maria Clara Salgado Gama, Maria Luiza Gomes Teixeira, Ana Celina Aquino Vasconcelos, Ana Maria Carpenter Genescá, Stella Cecília Sangenreich, Maria Apparecida Mamede Neves, e eu, Maria Luiza Leão, onde tratamos de problemas semelhantes aos de hoje. Uma grande motivação pessoal, minha, nesses simpósios, repito, é tentar investigar a epistemologia da psicopedagogia ...Sara, na sua palestra inicial do primeiro simpósio, comentou que não se poderia, provavelmente, ter uma teoria da psicopedagogia; apenas poderíamos ter uma teoria da prática psicopedagógica e, qual não foi a minha alegria que na última conferência, pudemos comentar sobre uma possibilidade de se trilhar por esse caminho, de se iniciar as propostas hipotéticas nessa direção. Nessa ocasião, eu estava ainda em processo de elaboração da minha tese de doutorado onde um dos objetivos era justamente tentar propor uma hipótese teórica para o pensamento no ato de conhecer.
Gostaria de lembrar que teremos então, no horizonte desse 2º simpósio, sempre tentando trazer uma questão central de reflexão em cada exposição, conferência, palestras e interlocução... teremos aportes de outros campos de conhecimento que investigam o fenômeno da aprendizagem humana contando com Fernando Vidal que nos aparecerá em vídeo diretamente da Berlim, Rossano Cabral Lima falando do campo da psiquiatria, Benilton Bezerra da neurociência e Tomás Prado da Filosofia. Teremos o aporte de Apparecida Mamede com apoio de Sara Pain nos trazendo luzes sobre a questão do hipertexto, Sara Pain em dobradinha comigo abordará a questão, menina dos meus olhos, de como realizar a articulação para fundar o campo da psicopedagogia para ir na direção da minha teimosia, com a interlocução de Sonia Parente. Diferentes instituições cariocas dedicadas à psicopedagogia e aprendizagem tais como Noap, Ceperj, Pró-Saber e Tekoa procurarão levantar questões e fenômenos de pesquisa num campo em desenvolvimento: a psicopedagogia comunitária.
E assim renovo a minha alegria vivida na abertura do 1º Simpósio por poder continuar alimentando um sonho que é meu, da minha equipe do TEKOA, e das muitas colegas aqui presentes, de se pesquisar e de se solidificar um campo teórico para a psicopedagogia...
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