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“ALTAS HABILIDADES” E REFLEXÕES PSICOPEDAGÓGICAS DECORRENTES

Em uma entrevista exposta no site da ABPp-Rj de março desse ano, a professora Maria Clara Sodré S. Gama, doutora em Educação pela Columbia University define: Ser um superdotado significa situar-se acima da média das pessoas em relação a alguma habilidade relevante. Os portadores de altas habilidades (PAH), como também podem ser chamados os superdotados, são curiosos, criativos e aprendem tarefas com facilidade. Muitas vezes, surpreendem os pais com habilidades precoces, vocabulário avançado em comparação com crianças da sua idade e raciocínios complexos (...) Essas características são sinais. Mas obviamente, é necessário que um especialista faça uma avaliação para constatar se realmente é uma superdotação. O simples fato de aprender mais rápido não qualificaria uma criança como superdotada. É muito mais uma questão de grau do que de diferenças imensas. Ou seja, a diferença que caracteriza o aluno superdotado não é que ele faça coisas que mais ninguém faz. Ele faz coisas numa idade ou numa extensão que não é típica. Por exemplo: uma criança que aprende a ler aos quatro anos. O ato de ler não é uma coisa excepcional, mas sim o fato de que essa leitura seja feita antes da hora. Essa criança pode continuar tendo um desenvolvimento diferente e ser classificada como uma Superdotada ou ficar só nisso, sem apresentar mais nada que a qualifique como tal.

E acrescenta que: Superdotação é uma habilidade maior do que a média. É uma coisa que passa pelo desenvolvimento intelectual da criança. Embora também possa ter um desenvolvimento na área da dança, do esporte, enfim, de uma maneira geral passa pelo desenvolvimento da parte intelectual .

Ao escrever esse artigo tenho a intenção de levantar questões com relação ao tema das “altas habilidades” para uma reflexão do ponto de vista psicopedagógico no que diz respeito a pensar sobre “crianças especiais”, no caso designadas de superdotadas, e também de outras classificadas com “destoantes de média”. Entendendo aqui que a reflexão pode abranger o pensamento do “sujeito no ato de aprender”, bem como pensar no contexto em que ocorre a aprendizagem: família, escola, comunidade em geral.

Nos situamos numa postura que vê a aprendizagem como produto, construído numa interação sujeito-meio do tipo dialética. A construção se refere às estruturas do pensamento subjacentes a todo o processo de elaboração de conhecimentos e ao próprio instrumental (o pensamento.capaz de realizar as aprendizagens.

A psicopedagogia é o campo do conhecimento que se ocupa do estudo dos fenômenos relativos à aprendizagem humana. Privilegio uma psicopedagigia que questiona a existência do ser que aprende, dos processos dessa aprendizagem e dos produtos desses processos.

Podemos pensar na psicopedagogia no que concerne à sua intervenção, como prevenção, como tratamento, como meio para fundamentar uma orientação ou uma reflexão sobre as questões que envolvem aprendizagem, em consultórios, nas comunidades, em escolas, em empresas... Como também podemos pensar na psicopedagogia com um campo de investigação capaz de produzir teoria.

Lembremos que a aprendizagem é um fenômeno complexo que pode abordar desde processos orgânicos (químicos, neurológicos, hormonais...) até “a paixão de descobrir a quadratura do círculo” com diz Sara Pain. Remete à hereditariedade da espécie e do indivíduo, bem como de todo processo de transmissão externa e de reconstrução daquilo que é “faltante“ na transmissão interna da nossa espécie. Diz respeito à cultura, à sociedade, à família, à escola, com suas ideologias e modalidades de transmissão.

O objeto central de estudo da psicopedagogia, quando se fala da existência de um sujeito capaz de aprender, é o pensamento capaz de reconstruir a cultura. As estruturas que compõem o pensamento é que garantem a possibilidade de elaboração dos conhecimentos.

Postulamos o pensamento como um sistema composto pela confederação de dois subsistemas: o sistema lógico conceitual encarregado da construção da objetividade, estudado pela escola de Genebra e pelos pós-piagetianos, e o sistema simbólico-desiderativo encarregado da instauração da subjetividade, proposto pela psicanálise. No ato de aprender, o pensamento seria produzido pelo inconsciente numa articulação desses dois sistemas. As leis dessa interação intersistêmica nos são desconhecidas. Cada estrutura mencionada (a da “inteligência” e a da “do desejo”) possui seus objetos e operações próprias e diferenciadas. Segundo Pain, cada estrutura pode ser tratada como um “órgão” do pensamento, no sentido de terem funções específicas nesse sistema.

Ao abordarmos os sistema responsável pelo ato de aprender, nos posiciona numa postura interacionista, dialética, estruturalista e construtivista. Assim, as estruturas do pensamento não existem a priori (a não ser nas suas formas muito elementares), são construído numa interação sujeito-meio, interação de caráter dialético onde as duas entidades - sujeito aprendente e conhecimentos - são constantemente construídas e reconstruídas.

Referindo-se às “altas habilidades“ no sentido mais estrito, isto é, assinalando a estrutura da “inteligência”, mesmo que falemos de predisposição genética, podemos dizer que ninguém nasce superdotado e a questão que se coloca e que nos interessa psicopedagogicamente falando é: como é que se deu o processo de construção e a modalidade de funcionamento dessa “habilidade exacerbada”? Vemos pessoas que possuem uma estrutura bem desenvolvida e que funcionam bem aquém de suas possibilidades, por que?

A função básica da aprendizagem humana é a sobrevivência. A sobrevivência numa cultura. Cultura reconstruída numa escola e dentro de uma família. Como foi e é esse contexto dialético de interação, estruturação e funcionamento nas crianças que desenvolveram suas “altas habilidades”? Segundo Bion, os rudimentos do pensamento começam a se constituir na “ausência da mãe”; isto é, numa “falta de objeto” articulada a uma possibilidade de aprender (competências e desejos).

Postulamos que a função do pensamento no ato de conhecer é poder elaborar uma realidade onde o aprendiz possa instaurar-se como sujeito (do desejo). A questão dos superdotados é a mesma de todos os seres humanos fadados necessariamente à aprendizagem para se tornarem sujeitos. Mas porque constroem altas habilidades e funcionam assim? A etiologia, a história, o como foi constituído esse sujeito dito superdotado é importante para que possamos entender suas motivações, seus sucessos, suas angústias, suas dificuldades... Há os superdotados que através de suas habilidades estão podendo “dar conta” de uma necessidade de construção para fazer sentido sua sobrevivência. Qual o significado de sua falta? Porque é tão “apetente” e curioso? Há os de sucesso e os que sucumbem ao próprio sucesso. Há os angustiados... Assim, do ponto de vista de uma psicopedagogia do sujeito, não importa a identidade, o rótulo, de superdotado nem o seu quantum de superdotação, mas o porquê e o como ele se desenvolveu assim e como funciona hoje.

Lembremos também que o conceito de “bom aprendiz” não coincide necessariamente com o de bom aluno, nem tampouco com superdotação. O bom aprendiz é aquela pessoa capaz de desenvolver suas potencialidades, para sua adaptação ativa no mundo, movida por seus desejos. Pode percorrer bem diversos campos de conhecimento no sentido horizontal (passar de um cálculo para uma localização geográfica, de um pensamento poético a um pensamento conceitual) e pode funcionar em diferentes níveis de competência no sentido vertical (passar de um pensamento formal a um percepto-motor), conforme exija sua necessidade de sobrevivência como sujeito. Desse modo, não podemos dizer que uma pessoa com síndrome de down, que não desenvolve suas habilidades do mesmo modo que outras crianças de sua idade, é um “mal aprendiz” ou que tem “problemas de aprendizagem”. Ele pode até mesmo ser um excelente aprendiz se, quando motivado, mobiliza bem suas possibilidades e se desenvolve.

Em princípio, diz-se que o superdotado é aquele aprendiz que desenvolve vertiginosamente, prematuramente, no sentido vertical, sua estrutura cognitiva. Muitas vezes notamos nessas crianças a falta de experiências para enriquecer cada etapa, o que, em alguns casos, gera dificuldades de regressão cognitiva. São pessoas com dificuldades de operar, às vezes, num nível mais primitivo de pensamento...

Voltando à questão da etiologia da construção das altas habilidades: qual a causalidade dessa construção “atípica”, no sentido de desvio da norma. O que não quer dizer que operar na norma é que seja o ideal, assim, o mesmo é válido para os de ”baixas habilidades”. Precisamos pensar se essa construção é decorrente de um impulso interno mais genuíno para percorrer um “espaço de busca” instalado numa demanda interna ou para fazer face a uma demanda externa, estimulada constantemente de fora para dentro. E interessante observar de que forma essa demanda contextual é introjetada. Muitas vezes, no caso do excesso de estímulo externo, observamos um aprendiz angustiado pois o sentido dessas aprendizagens pode encontrar-se muito deslocado de seu desejo . Não esquecendo que o desejo é também o desejo do outro e que o caminho do desejo pode ser muito complexo...

Na clínica recebi crianças muito habilidosas, com boas notas na escola, competentes, cujas famílias pediam-me um diagnóstico para verificarem se seus filhos eram superdotados, além de queixas de mal comportamento na escola ou de angústias e medos. Ainda não tive diagnosticada nenhuma criança que tivesse construído sua estrutura lógico- conceitual para além de sua faixa etária, mas sem dúvida, as que observei, operavam seu pensamento com grande competência cognitiva. O que mais me interessou, foi notar como havia desenvolvido suas habilidades e o significado de pensar, conhecer, aprender, para elas. Em geral, essas crianças pensavam, acima de tudo, para dar conta de grandes dificuldades de comunicação e intercâmbio afetivo na família, ou para dar conta da demanda dos pais por um desempenho de extrema exigência. A criança, nesse caso, vivia sua aprendizagem com grande angústia, com sentimento de constante insuficiência, com medo de errar e de deixar de ser o primeiro da classe...

Desse modo, a meu ver, para os especialistas em aprendizagem, a questão é entender a modalidade -- estruturas e funcionamento do pensamento que aprende - de cada sujeito ou grupo, e entender porque funciona assim. Quer o sujeito seja “normal”, isto é, possuir competência adequada para sua idade, mas funcionando de modo sintomático, quer possua deficiências visuais ou auditivas, síndromes, altas habilidades, baixas habilidades; precisamos compreender como funciona e o significado para ele e para o seu contexto familiar, escolar e comunitário de sua modalidade de aprendizagem.

Maria Luiza Oliveira Castro de Leão – Psicopedagoga, pesquisadora da epistemologia da psicopedagogia, diretora do Tekoa, centro de estudos da aprendizagem. Junho 2006

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CHÁ DE DEBATE
DO TEKOA 2009


“APRENDENDO COM SEUS PARES”
Exposição, Interlocução e Debate

Aconteceu dia 14/09/09

“PESQUISA: PASSOS E IMPASSES” - A PESQUISA E A PSICOPEDAGOGIA
Fernando César Ferreira Gouvêa (Pedagogo, graduado em Letras, mestre e doutor em Educação pela PUC-Rio; professor do módulo: Métodos de Pesquisa, Projetos e Monografia - Tekoa)

Interlocução de Maria Luiza Oliveira Castro de Leão e equipe efetiva do Tekoa.


Aconteceu dia 11/05/09



"CRÔNICAS FAMILIARES: LAÇOS CULTURAIS COM FIOS SISTÊMICOS".
Márcia Regina Ribeiro
(psicóloga e psicopedagoga)


TEKOA SIGNIFICA

A palavra TEKOA vem do Tupi-Guarani e significa aldeia. KOA quer dizer ensinar e aprender, um verbo só. TO KOA significa para ensinar e aprender. O TEKOA é um espaço institucional onde o conhecimento e os inúmeros caminhos do aprendizado tendem a ser compartilhados. A busca por uma ampla leitura do processo de aprendizagem e de construção do conhecimento é uma constante.

TEKOA - Centro de Estudos da Aprendizagem