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Um discurso psicopedagógico para o "fenômeno do TDAH"
Por acaso você, profissional de educação ou de saúde, tem vivido na sua rotina de trabalho com esse tipo de situação? Um aluno / cliente que lhe entrega um bilhete da mãe, (escrito depois que ela leu ou ouviu uma reportagem sobre o dito TDAH) que diz: "meu filho por acaso não teria um déficit de atenção?". Um pai que solicita um atendimento especial ao seu filho na escola porque ele é um TDAH. Um professor de Educação Física que lhe pergunta como trabalhar com uma criança hiperativa, portadora de TDAH. Uma mãe que diz: "minha filha tem déficit de atenção e dislexia, mas não topei dar ritalina por muito tempo porque ela perdeu a fome..."
Percebemos nesses discursos um tom monocórdico-determinista. Há um distintivo identificador dessas pessoas: elas são portadoras do TDAH. Elas SÃO...
Nós do Tekoa, equipe de um centro de investigação e atuação na área da psicopedagogia, nos demos a tarefa de construir um discurso psicopedagógico para instrumentalizar uma reflexão relativa ao "fenômeno atual do TDAH". Tal fenômeno tem sido identificado pelo psiquiatra infantil Dr Rossano Cabral Lima, mestre em Saúde Coletiva do Instituto de Medicina Social da Uerj, como uma "epidemia" que observamos no Brasil e com maior intensidade ainda nos EUA. Pelo que temos notícias, o fenômeno TDAH não tem ocorrido com tal relevância na Europa... Por que será?
Temos notado uma crescente mobilização de nossa categoria com relação ao assunto, que foi tratado com cuidado no IV Encontro Carioca de Psicopedagogia, em março desse ano. Sabe-se que sistematicamente um grupo tem se reunido para aprofundar as questões levantadas no evento.
Por ora, para iniciarmos essa caminhada reflexiva, multifacetadas e complexas, nos posicionamos de maneira a levantar questões que dizem respeito aos profissionais que realizam atendimento e investigação no campo da psicopedagogia e que se debruçam sobre questões relativas ao conhecimento, tais como: sua construção, seu poder, sua circulação...
Vamos lá:
O que é TDAH? O que é DDA? Siglas ligadas a quê? Quem as nomeou? O que nomeiam?
Fonte retirada da dissertação de Mestrado do psiquiatra Rossano Cabral Lima orientado pelo psicanalista Jurandir Freire Costa: "A Construção Contemporânea de Bioidentidades - Um estudo sobre o transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDA/H.)
A atual definição do TDA/H "corresponde a uma síndrome caracterizada por comportamento hiperativo e inquietude motora, desatenção marcante, falta de envolvimento persistente nas tarefas e impulsividade". Fonte da APA (Associação Psiquiátrica Americana, através dos critérios diagnósticos do DSM-IV (Diagnostic and Statistic Manual of Mental Disorder) e do CID (Classificação Internacional de Doenças).
O TDA/H possui uma história que vem sendo construída desde o início do século passado. Já sofreu várias modificações em sua nomenclatura tais como:" DCM ( Disfunção Cerebral Mínima), nos EUA, nos anos 60 e 70 descrita pelo U.S Department of Health, Education and Welfare (1966). Na terceira edição do DSM (1980), a entidade foi renomeada de "Distúrbio de Déficit de Atenção (DDA)", que incluía um subtipo com e outro sem hiperatividade. Tal mudança fundamentou a ampliação da abrangência do diagnóstico, pois permitiu a inclusão de crianças sem nenhuma hiperatividade, aparentemente "tranquilas", mas com dificuldades em manter o foco de vigilância em tarefas escolares. Da mesma forma, também facilitou que os adultos passassem a figurar entre os portadores do transtorno. É neste momento a partir do qual o TDA/H e a ritalina tornam-se praticamente indissociáveis: A detecção do primeiro levará cada vez mais, à indicação da prescrição da última". (1987)
A quarta edição do DSM (1994), "apresenta o transtorno dividido em dois subgrupos: um desatento e o outro hiperativo/impulsivo, além de admitir um tipo combinado'.
"O CID, da Organização Mundial de Saúde, preserva a ênfase na hiperatividade. A atual edição (CID-10), publicada em 1992, a nomeia de "transtorno hipercinético".
"Apesar das variações nas denominações, as descrições do DSM e do CID conservam mais semelhanças que discrepâncias entre si, traduzindo a pretensão de se validar uma categoria diagnóstica homogênea e universalmente aceita'.
Como se diagnostica? Até onde sabemos não se tem ainda "provas concretas", no sentido de radiografias, tomografia, exames clínicos laboratoriais (de caráter químico), que respaldem um diagnóstico. O TDAH é então comumente diagnosticado de forma descritiva, através de respostas dadas a um questionário.
"O diagnóstico do transtorno é realizado pela soma de sintomas ou critérios, que são organizados em dois grupos: desatenção e hiperatividade / impulsividade (DSM-IV). Qualquer um dos "sintomas", tomados isoladamente, poderia ser encontrado na maioria das crianças; somados e ocorrendo "frequentemente", eles passam a provocar 'comportamento clinicamente importante no funcionamento social, acadêmico ou ocupacional"e, 'em comparação com outras crianças da mesma idade e QI", denotam a presença da patologia". (Para maiores informações sobre o questionário, a tese encontra-se na Uerj - sétimo andar da biblioteca)...
Qual o respaldo científico da relação dos sintomas de hiperatividade e desatenção com o organismo no sentido neurológico? Fala-se de uma correlação feita com um grupo de controle no EUA. Lembramos que correlação não constitui causalidade linear, e o foco então fica bem mais amplo... Também nos informamos que o resultado empírico obtido não se repetiu com outros grupos de controle. O que isso pode significar?
Ressalvamos que não somos médicos. Tratamos dos problemas de aprendizagem pela ótica das possibilidades e das limitações, apostando nas possibilidades...
Para nós existem pessoas mais atentas, as menos atentas, as muito atentas e as pouquíssimo atentas, mas é preciso observar, desatento em relação à que? Quando? Do ponto de vista de quem? Há pessoas, mais lentas, mais rápidas, mais lentas naquilo, mais rápidas nisso, com movimentos descontrolados, excessivamente controlados; precisamos procurar sempre contextualizar as condutas: quando? Onde? Em relação a quê? Em relação a quem? Essa diferenciação de ritmos e intensidade nos humanos , é bastante interessante, senão, que tédio!
A atenção ou o movimento "destoante" constitui, para nós, o epifenômeno, a ponta do iceberg, que pode estar relacionado com diversas causas, cujo elemento definitório pode estar ligado ou não à biologia.
Hoje em dia temos que produzir, produzir, produzir, incessantemente, atentamente, fragmentadamente, desatentamente, hipermovimentadamente. Cada vez mais próximos às máquinas super-velozes, temos que produzir da mesma forma e na mesma quantidade, num ritmo industrial pós-moderno. A serviço de quem? A quem nos submetemos? Para quem produzimos e vendemos idéias e produtos? De quem compramos idéias e produtos?
Por Maria Luiza Leão e Anne Marie Bouyer .
Esse papo vai continuar, de tempos em tempos, pensamentos, dados novos, um debate...
Por ora vos legamos o artigo do Dr Rossano Cabral Lima
TDA/H: uma "epidemia" em curso?
Tem chamado a atenção de todos, especialmente no campo da clínica e da educação, a onipresença de uma entidade nosológica pouco diagnosticada no Brasil até uma década atrás: o Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDA/H). Em seus domínios, crianças anteriormente tidas como "peraltas", "mal-educadas", "indisciplinadas" ou "desmotivadas", e adultos que se consideravam "desorganizados" e "irresponsáveis", passam a ser tomados como acometidos por uma disfunção nos circuitos cerebrais, possivelmente de origem genética, que provoca uma deficiência ou inconstância na atenção e um excesso nos níveis de ação. Oferece-se, assim, a versão "oficial" para a explosão de diagnósticos de TDA/H observada nos últimos anos: antes subdiagnosticados, essas crianças e adultos seriam agora beneficiários do avanço do saber psiquiátrico, que estaria nos mostrando a "verdade" sobre o que esses pacientes realmente têm.
Porém, há uma outra possibilidade de compreender a "epidemia" contemporânea de TDA/H. Para isso precisaremos desviar (mesmo que só parcialmente) nosso olhar da fisiologia cerebral e mirar a cultura atual. Nos últimos anos, a descrição de uma série de condutas, afetos e mal-estares humanos vem sofrendo um progressivo deslocamento de sentido. A pluralidade de abordagens, outrora presente quando se tratava de explicar as vicissitudes individuais, tem sido solapada pela hegemonia de concepções fisicalistas, que tendem a reduzi-las a sua dimensão biológica. Até meados do século passado, tais concepções disputavam a hegemonia com outras que se originavam em diferentes campos e que utilizavam outros léxicos. Por exemplo, os comportamentos que traziam desconforto a si e a outros podiam ser considerados como tendo causas médicas, mas também podiam ser tomados como efeitos da ação insuficiente ou equivocada de instâncias como a família ou a escola, da falta de obstinação e vontade ou de conflitos interiores. Hoje, explicações psicológicas, pedagógicas ou oriundas da moral leiga são dispensadas como equivocadas e estereotipadas, sendo substituídas, especialmente, por outras que localizam no corpo as razões dos dissabores experimentados na vida. Tem sido notada uma tendência dos indivíduos - sejam eles "normais" ou "desviantes" - buscarem referenciais corporais ou biológicos nos quais ancorar a própria identidade ou a de sua prole. Num mundo no qual os referenciais tradicionais dos quais as pessoas extraiam as matérias-primas de sua identidade, como a Igreja, as ideologias, o trabalho e a família, têm perdido potência e se desagregado, o corpo tem se tornado uma das únicas fontes de certeza e estabilidade. Essa ascenção dos atributos corporais a matrizes identitárias privilegiadas reforça a decadência da interioridade como depositária das verdades do eu. Assim, ao invés de procurar saber quem se é por meio de um demorado e complexo labor interior, perscrutando sentimentos e representações conflituosas, tem se preferido recorrer à biologia para explicar idiossincrasias e comportamentos.
Atribuir suas dificuldades ou as de seus filhos ao TDA/H é um exemplo desse tipo de recurso. Se a princípio seu conhecimento era restrito a setores da comunidade psiquiátrica, essa entidade passou, especialmente a partir dos anos 90, a influenciar o raciocínio clínico de outros especialistas e a fazer parte do vocabulário cotidiano de professores, pais e outros adultos. Tido como o distúrbio psiquiátrico mais comum entre crianças em idade escolar e a principal causa de encaminhamento de crianças para os especialistas, seus sintomas, de início precoce, consistem em hiperatividade, desatenção, subaproveitamento acadêmico, e comportamento impulsivo. Antes descrito quase exclusivamente na infância, faixa etária que ainda hoje responde pelo maior número de diagnósticos, o TDA/H tem sido crescentemente identificado em adultos. Acredita-se que cerca de um a dois terços dos casos do transtorno na infância persista após a adolescência. Há controvérsias sobre o aumento de sua prevalência nos últimos anos: para diversos autores os instrumentos diagnósticos mais recentes, como as últimas versões do Diagnostic and Statistic Manual of Mental Diseases (DSM-III-R e o DSM-IV, respectivamente sua terceira edição revisada e sua quarta edição) tendem a identificá-lo mais que as anteriores. Da mesma forma, em comparação com o que ocorria há uma década, parece haver uma tendência a incluir casos mais leves, indivíduos com um diagnóstico "subliminar" ou mesmo pessoas que possuam "traços" do transtorno. Apesar de suas taxas médias de prevalência na infância se situarem entre 3 a 5%, estudos em diferentes países (ou mesmo dentro de uma mesma nação) têm encontrado dados discrepantes, com variação entre 1 e 20%. Uma das consequências de um diagnóstico de TDA/H é a quase onipresente prescrição de Ritalina (nome comercialda substância metilfenidato), independente da gravidade. O uso da droga, apesar de submetido a rígido controle, tem se tornado um problema de saúde pública, especialmente nos EUA, onde sua produção cresceu 700 % entre 1990 e 1998, quando quase quatro milhões de pessoas - a maioria crianças - usavam o fármaco. No Brasil os números são mais modestos, mas no mesmo período as vendas de Ritalina saltaram de 16, 4 para 65,2 mil unidades.
Uma série de autores, incluindo alguns dos mais entusiasmados com o TDA/H, vêm condenando o caráter "categorial" que o DSM-IV imprime ao transtorno, e avaliam que a noção de um continuum com a população normal é a mais adequada para bem entendê-lo. A tensão entre esta última concepção, mais dimensional, e aquela visão do transtorno como uma categoria bem demarcada poderia estimular um rico debate público sobre a "natureza" do TDA/H. Entretanto, não é isso que ocorre: a categoria chega até a mídia, pais e professores de forma simplificada, subordinando uma visão qualitativa de normalidade (o normal como um valor, sempre definido por uma série de relações com o ambiente) a uma visão quantitativa (na qual o anormal é tratado como fato objetivo). Assim, o TDA/H é difundido como uma "entidade" - cuja existência independe das particularidades do sujeito acometido - "descoberta" quando se reconhece nas condutas do "paciente" características que preenchem o número necessário de critérios.
As críticas que têm sido dirigidas ao caráter categorial do DSM, porém, não visam a colocar em xeque o diagnóstico. Ao contrário, elas ofertam a indivíduos que correriam o risco de ficar fora dos limites do quadro, a possibilidade de nele se incluirem. Com o borramento das fronteiras entre o TDA/H e a normalidade, mais e mais pessoas identificam a si ou a seus filhos nas descrições do transtorno e facilmente têm sua impressão avalizada pela opinião de algum psiquiatra. A tentativa de ampliar os limites do diagnóstico aparece, por exemplo, nas propostas de se estender a idade máxima de início do quadro de 7 para 13 anos e na possibilidade de que crianças com o transtorno mostrem concentração adequada e duradoura em algumas situações, geralmente ao jogar videogame ou em outra brincadeira muito estimulante. Neste caso, não haveria um déficit de atenção difuso, mas "inatenção seletiva" ou "inconstância de atenção". Tem sido questionada até mesmo a necessidade de haver claros indícios de comprometimento significativo no funcionamento social, acadêmico ou laborativo para que se faça o diagnóstico. Alguns autores consideram essa exigência "problemática", especialmente quando os portadores, no decorrer da vida, encontram meios de se adaptar a suas dificuldades, criando estratégias que minimizam o impacto desses déficits em seu cotidiano. Sem contar com ajuda e sem saber que carregam consigo o transtorno, eles acabam vendo-se privados das vantagens de ser sócio do clube do TDA/H.
Podemos indagar por que os pais (e outros adultos) têm aderido com tanta rapidez a esse diagnóstico, por vezes o recebendo com alívio e entusiasmo. Uma das chaves para se entender a explosão de diagnósticos de TDA/H e, principalmente, o sucesso comercial da Ritalina, reside na ênfase atual na performance. À medida que seu padrão econômico se deteriora, a classe média precisa lutar com renovada dedicação para se afastar da linha da pobreza e manter seu nível de consumo. Nessa batalha, a existência de uma medicação que pode melhorar o desempenho (principalmente escolar), independente de um diagnóstico "real" de TDA/H, torna-se muito atraente. A questão, então, desloca-se de por que usar a Ritalina para por que não usá-la. Se o vizinho a usa e apresenta uma melhora da performance no colégio ou no trabalho, por que também não experimentar seus benefícios, ao invés de se dedicar de modo extenuante a uma melhor nota ou a conseguir uma promoção? Vendo a sombra da desatenção ameaçar sua eficácia ou a de seus filhos, resta ao indivíduo poucas saídas - e a identificação com o TDA/H tem sido uma delas. Tem se instalado uma indiferenciação entre os usos terapêutico e cosmético da Ritalina, na lacuna produzida pelas incertas fronteiras entre o transtorno bem definido, suas formas "subclínicas" e seus "traços" presentes nos normais. O transtorno se alimenta dessa indeterminação, pois dela depende o crescente reconhecimento, pelas pessoas, de seus traços de comportamento - ou das condutas dos filhos - nas descrições oferecidas pelo DSM ou suas versões "para leigos" divulgadas na mídia. A despeito das tentativas de aperfeiçoamento de critérios objetivos para a caracterização do TDA/H e sua diferenciação de outros estados, a confusão entre a desatenção "normal", a supostamente "reativa", estados de devaneio criativo e a patologia psiquiátrica também persiste porque a entidade já circula de modo semi-autônomo nas cabeças dos professores, nas revistas e cadernos de saúde, na literatura de "auto-ajuda" e no vocabulário cotidiano de pais. Quando essas instâncias, especialmente a escola, avalizam rapidamente o diagnóstico e pressionam pelo uso da medicação, é quase inevitável a inclusão da criança no "admirável mundo" do TDA/H.
Além do uso da Ritalina, têm sido defendidas uma série de modificações nos ambientes escolares de modo a torná-los mais adequados às necessidades das crianças inquietas ou com dificuldades com a atenção. É certo que diversas crianças precisam de tais adaptações para melhorar seu desempenho acadêmico. Entretanto, nos EUA, tem se observado que à medida que o TDA/H torna as pessoas elegíveis para receber medidas especiais de proteção, há um estímulo para o aumento dos diagnósticos do transtorno, e também do recurso ao tratamento farmacológico. Já que essa tendência vem chegando com força ao Brasil, devemos estar atentos: como fazer com que o respeito às especificidade escolares de crianças e adolescentes com marcante dificuldades atentivas e hiperativas não avalize uma superinclusão de indivíduos na categoria TDA/H?
A epidemia de TDA/H pode ser considerada um sinal dos tempos. É curioso notar que a metamorfose da tríade desatenção-hiperatividade-impulsividade em doença é estimulada por uma cultura que depende de uma sobrecarga de estímulos perceptivos, de uma ubíqua disposição em desviar o alvo da atenção, da celebração da agressividade e da mobilidade incessante na busca de sucesso e prosperidade. Exige-se que o indivíduo, a fim de obter uma boa performance em todas os recantos da vida, mantenha-se concentrado em suas atividades, mas também que demonstre uma disposição maleável de trocar o foco de interesse quando desejar ou lhe for requerido. Porém, o limiar a partir do qual uma atenção competente transforma-se em perigosos estados de distratibilidade é muito baixo. Quando a desatenção ou hiperatividade ameaça prejudicar seu potencial competitivo, aderir ao ideário do TDA/H e à Ritalina tem se tornado uma maneira de pais maximizarem a eficácia de seus filhos. Por outro lado, na insuficiência da intervenção escolar ou familiar, a hipótese TDA/H localiza no indivíduo e em sua constituição biológica a explicação dos insucessos acadêmicos, eximindo qualquer instância cultural da responsabilidade (o que não quer dizer culpa!) pelas dificuldades ou "sintomas" presentes.
Patrocinado pela cultura do corpo e da saúde e pelo primado da biologia, o TDA/H deverá incorporar-se definitivamente à vida contemporânea. Tentar ignorá-lo é tarefa tão condenável quanto sucumbir a sua transformação em doença a explicar todos os desvios das crianças e insucessos dos adultos. Não nos interessa propor um retorno saudosista a uma ordem repressora, que prescrevia castigos físicos e morais para as crianças incômodas ou reservava aos pais uma culpa impotente, por não oferecer-lhes alternativas de ação. Devemos, porém, buscar resistir ou encontrar saídas criativas para a tendência contemporânea a reduzir tudo que é humano a concepções fisicalistas, biológicas. A figura do TDA/H pode, assim, encontrar melhor uso quando encarada como um diagnóstico "operacional", uma descrição que, entre outras, pode ser útil para ajudar a lidar com certos comportamentos infantis. Isso é preferível a sua caracterização como uma "coisa", como uma doença aparentemente independente dos sujeitos, radicada na rede neural e determinada pela genética. Dessa forma, mesmo o uso da Ritalina, que pode ser precioso se bem indicado, será parte de um esforço terapêutico que não pode, e nem deve, ignorar os vários sentidos implicados nas condutas das crianças, ou excluir outras explicações sobre esses comportamentos em nome de uma alegoria neuropsiquiática, cujo uso exagerado pode acabar por resultar em seu próprio descrédito.
Artigo de Carla Rodrigues sobre a entrevista do Dr Rossano, cujo título é "Somos todos hiperativos" retirado do site "no mínimo" www.nominimo.com.br.
24.05.04
Incapacidade de levar adiante uma tarefa por muito tempo, dispersão de objetivos, muita agitação e pouco resultado. A descrição é de um paciente com Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDA/H) ou de um trabalhador urbano sobrecarregado, operando com prazos inviáveis, "pulando"de um assunto ao outro o dia inteiro? As semelhanças entre um paciente de TDA/H e um indivíduo qualquer afetado pelas características da vida pós-moderna não param por aí. Foi o que descobriu o psiquiatra Rossano Lima, mestre em Saude Coletiva do Instituto de Medicina Social da Uerj. No trabalho sobre o TDA/H, Rossano relaciona os sintomas de uma doença cujo diagnóstico vem crescendo à taxas espantosas com as caracteristicas do sujeito pós-moderno, aquele que, segundo o sociólogo Zigmunt Bauman, está "pronto a adaptar-se a um mundo que não oferece mais garantias e lastros estáveis e sólidos". Fragmentaçào ou doença, comportamento coletivo ou sintoma, é o que Rossano discute em 'A Construção contemporânea de bioidentidades: um estudo sobre o transtorno de déficit de atenção/hiperatividade". Ele explica porque estamos nos tornando todos hiperativos e desatentos.
Somos uma sociedade em estado de TDA/H?
Podemos dizer que a rápida propagação do TDA/H depende de um amplo arranjo cultural a lhe respaldar e ressoar. Edward Hallowell, um dos principais divulgadores do transtorno dos EUA, chegou a propor que a sociedade atual é indutora de "pseudo-TDA/H". O problema, não resolvido por ele nem por ninguém, é o da ausência de critérios confiáveis para diferenciar o quadro tido como verdadeiro (supostamente biológico) do falso (que seria culturalmente induzido). De qualquer maneira, podemos afirmar que uma sociedade que celebra como valores supremos a agressividade permanente no trabalho, a necessidade de mobilidade incessante e o imperativo do desvio contínuo do foco da atenção torna a existência do transtorno mais convincente e estimula a adesão das pessoas a suas concepções e a seu vocabulário. Não é por acaso que o surgimento e a explosão desse diagnóstico se dá agora, e não há trinta ou sessenta anos.
Medicalizar a "atenção" é uma maneira de facilitar ao sujeito a concentração de esforços num objetivo, independente do seu desejo?
A atenção tornou-se uma peça central na constituição das subjetividades contemporâneas. O avanço do modo de produção capitalista e o surgimento de uma série de tecnologias perceptivas (cinema, TV, computador, telefone, etc) fizeram com que os indivíduos dependessem, para sua eficácia na vida, de um delicado equilíbrio entre a atenção disciplinada e a disposição permanente em desviar o foco para objetos diversos. Porém, o limiar a partir do qual uma atenção competente transforma-se em perigosos estados de distrabilidade é muito baixo. Vendo a sombra da desatenção ameaçar sua performance ou a de seus filhos, resta ao indivíduo poucas saídas - e a identificação com o TDA/H tem sido uma delas. Ao ingressar no universo do transtorno ele passa a contar com o auxílio da Ritalina (nome comercial da substância metilfenidato), arma farmacológica a provar que se pode atuar na materialidade do corpo para que o farol da atenção não se apague, ou para fazê-lo brilhar mais que o do vizinho.
Um comentário de Anne Marie Bouyer.......
Inicialmente é importante esclarecer que a Psicopedagogia, ou melhor, a Centro em que trabalhamos, tem por "filosofia" olhar o cliente sob uma lente que nos permita construir junto com este , qual o sentido e o significado dos complexos comportamentos que nos são apresentados e suas articulações com a aprendizagem. Consideramos todo e qualquer sujeito que aprende, imerso numa determinada constelação familiar e inserido numa cultura dominante. Desta forma, tentar definir o sujeito a partir de um "transtorno", não é o nosso caminho. Pois agindo assim, estaremos fechando portas para que ele vislumbre outras possibilidades a partir de ferramentas que lhes sejam peculiares.
Afinal, o que é aprender? Podemos imaginar uma cena paradigmática, onde temos dois personagens atuando: um que aprende e o outro que ensina, ambos numa relação dialética, onde a confiança é o elemento básico de toda a aprendizagem. "Aprendemos quando outorgamos confiança ao outro". Este outro pode ser qualquer figura que ocupa o lugar daquele em quem depositamos confiança. É preciso que exista um vínculo humano para que a verdadeira aprendizagem ocorra. Não aprendemos com o cérebro. É o sujeito que aprende. E não é só com a inteligência, como se pensava anteriormente. Herdamos um organismo e todo o seu funcionamento. Qualquer alteração genética, comprometerá o aprender, que consequentemente sofrerá limitações, ainda que se aprenda. Temos um corpo "que fala" através dos gestos, expressões e movimentos. As primeiras aprendizagens se dão no corpo e não se esgotam aí. O bebê conhece o mundo através da boca, primeira zona do corpo que serve tanto para se alimentar, como para conhecer e amar. .Carregamos essas marcas ao longo de nossas vidas e na interação com o outro, vamos construindo sem cessar nossos corpos e identidades.
A inteligência e desejo caminham juntos, lado a lado, construindo a objetividade e a subjetividade humana. Elas se encontram na ação e no desejo que fazem do sujeito um eterno aprendiz
Cada criança ocupa um lugar no seio familiar. Ela é dita pela palavra dos pais mesmo antes de nascer. Ela já ocupa no imaginário do casal parental, um desejo que de alguma forma se cumprirá.
Hoje vivemos mais do que nunca, num capitalismo desenfreado, exacerbado e enlouquecedor, acarretando mais violência de todos os matizes. Estamos cada vez mais desenvolvendo depressões, fobias e ira dos que são menos afortunados ( a maioria) porque também querem possuir ( dinheiro, poder, celular, carro, lazer etc....) Vivemos numa sociedade onde a dimensão do Ter ( a qualquer custo), é preponderante sobre o que podemos Ser em nossa dimensão humana. A maneira como estamos vivendo, os valores que estão sendo enfatizados, são o reflexo dessa ideologia dominante que arrasta a maioria das pessoas. É neste contexto maior que também devemos analisar o sujeito e suas aprendizagens.
O sujeito aprende na articulação dessas dimensões de maneira satisfatória ou não. Neste último caso, pode ocorrer um problema de aprendizagem. Sara Pain propõe um diagnóstico
"capaz de estabelecer hipóteses sobre a significação profunda, metafórica, emocional, em termos de mecanismos e operações comprometidas" em relação ao sintoma apresentado ("troca de fonemas","não aprende a ler nem escrever", "dificuldade na leitura", "lentidão na execução das tarefas", "hiperatividade", etc...
O sintoma é um sinal, um alerta de que algo não anda bem. Diria mesmo que é um "pedido de socorro"da criança para que se preste atenção ao que está ocorrendo. É uma forma de linguagem que ela utiliza para se comunicar. Quando recebemos na clínica crianças ou adolescentes "ditos" hiperativos, há que se questionar esse discurso, no sentido de buscar hipóteses que possam nortear o sentido do sintoma para cada sujeito. Pois cada um carrega sua história particular construída a partir de sua família . Trabalhamos a partir do sintoma e para além dele. É hiperativo como? Para quem? Em quais situações? Qual o modelo de aprendizagem da família?
O sintoma deve ser "desmistificado" para que o sujeito não ocupe o lugar do mesmo. No caso do TDA/H, em vez de ter o transtorno, ele é o próprio TDA/H, ameaçando sua identidade.
Será que medicalizar o sintoma é a solução para o sofrimento humano? Como fica o sujeito, ou melhor, a criança, já que esta não tem escolha? Quais as mensagens que são transmitidas ao ser administrado o medicamento?
Não somos absolutamente contrários ao uso medicamentoso em certos casos, inclusive para o sujeito que apresente uma "agitação" que o impeça de dar conta de suas tarefas diárias. Somos contra o seu uso indiscriminado e por um tempo indeterminado, principalmente porque, na maioria dos casos, trata-se de pessoas em formação de identidades. Ainda que se faça o uso da medicação, é importante que a criança ou o adolescente, tome conhecimento do sentido de tudo isso, para que ele não fique aprisionado num lugar que em muitas vezes, lhe é imposto.
Cada um é único em sua singularidade e múltiplo em suas dimensões. É isto que caracteriza o ser humano e que o torna diferente dos demais. Tentar homogeneizar, colocar num padrão, é roubar-lhe o que tem de mais precioso - o modo de ser de cada um, com toda a complexidade e simplicidade da sua existência !
Dê a sua opinião, comente, participe para que o nosso discurso possa se enriquecer mais e mais...!
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