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Desde a sua fundação em 1999, o Grupo Tekoa, equipe institucional do Tekoa, se reúne mensalmente em grupos operativos. Como não podia deixar de ser, o grupo sentiu necessidade, 1ogo em seu início, de aprofundar seus conhecimentos sobre essa técnica, já que além de desejar saber mais sobre sua organização e funcionamento internos como equipe, foi fundado para atuar com um projeto social que visava intervir clinicamente com grupos.
Recentemente, quando o Tekoa completava seus 10 anos de existência e iniciava a ampliação de seus Núcleos de Formação em psicopedagogia e de Pesquisa, a equipe, tendo já realizado quase oitenta reuniões de grupo operativo institucional, sentiu necessidade de um retorno aos estudos sobre essa técnica para poder operar com mais desenvoltura na coordenação da nossa reunião interna e para repensar a coordenação das "reuniões operativas" incluídas na proposta de "Formação por Módulos" do Tekoa.
Por que o uso da postura e da técnica de grupo operativo?
Bem antes da existência do Tekoa como instituição, o pensamento operatório, de inspiração piagetiana, e operativo, no sentido do Pichon- Rivière, já era exercido por sua fundadora Maria Luiza Leão que teve oportunidade de estudar e exercer uma leitura operativa desde sua formação e em seus primeiros trabalhos como professora, pedagoga e psicopedagoga.
Alguns cursos de pós-graduação a levaram nessa direção tais como, o de "Análise Institucional" (Regina Murat /78), seguido pela formação em psicopedagogia com o professor Jorge Visca (79), apoiado na técnica de grupos operativos aos moldes da escola de Psicologia Social de Pichon -Rivière.
Suas intervenções como pedagoga e orientadora educacional (com grupo de professores), como psicopedagoga (institucional e clínica), como professora de pós-graduação, bem como as supervisões, assessorias, cursos e workshops conduzidos por ela, sempre deram espaço para o exercício do pensamento operativo, além de uma reflexão existencial e lúdica da aprendizagem humana.
Por essas experiências, Maria Luiza pode comprovar a possibilidade transformadora dessa técnica, no seu sentido mais profundo, por levar em consideração no seu exercício a complexidade do pensamento humano.
Desse modo, a gestação, o nascimento e o crescimento do Tekoa como centro de estudos da aprendizagem aconteceram nesse pensamento. Todas as pessoas formadas, "recicladas" e "supervisionadas" assim o foram sob essa leitura.
Ao longo de 2006, com as idas e vindas próprias de uma tarefa de registro, chegamos a essa síntese.
Um pouco de história...
1 ) Enrique Pichon-Rivière, autor da técnica operativa, nasceu em Genebra (Suíça) em 25 de junho de 1907. Aos três anos de idade, mudou-se com a família para a Argentina, vindo a falecer em Buenos Aires em 16 de junho de 1977.
Na cidade de Góia completou seus primeiros estudos partindo, então, para Rosário onde estudou medicina e teve seu primeiro emprego como instrutor de hábitos seguros, num prostíbulo.
Na vida acadêmica, Enrique sempre buscava a articulação de diferentes pontos de vista de um mesmo fenômeno em conseqüência de ter vivido com a diversidade cultural entre sua família de costumes europeus e seus vizinhos que eram em sua maioria nativos guaranis e negros africanos.
Inicia seu trabalho como psiquiatra no asilo de Torres para oligofrênicos, onde permaneceu por quinze anos. Neste hospício, seu primeiro trabalho foi o treinamento de enfermeiros para o trato com os pacientes que o levou ao desenvolvimento de técnica de Grupo Operativo, onde discutia os casos psiquiátricos. Pichon apontava para a grande importância de conceituar toda a prática que os enfermeiros haviam assimilado ao longo daqueles anos de trabalho no hospício.
O seu exercício psiquiátrico inclui todos os desafios da psiquiatria dinâmica e da psicanálise e, como psicanalista, incentivava seus colegas a trabalharem com a loucura, a psicose.
Fundou, junto com outros psicanalistas, a APA - Associação Psicanalítica Argentina - que possibilitou, na Argentina, o estudo da psicossomática, da psicanálise de grupo, da análise institucional e do trabalho comunitário. Progressivamente, Pichon foi deixando a concepção de psicanálise ortodoxa e concentrando seus estudos e sua prática nos grupos da sociedade desenvolvendo então, um novo enfoque epistemológico que o levou à psicologia social, concebida como sendo a democratização da psicanálise em sua obra “Del Psicoanálise de la Psicologia Social”.
2) Jorge Visca, divulgador da Técnica de Grupo Operativo na aprendizagem, nasceu na cidade de Boradeiro (província de Buenos Aires) em 14 de maio de 1935 e morreu em 23 de julho de 2000, em Buenos Aires.
Foi o fundador do Centro de Estudos Psicopedagógicos na Argentina, no Brasil e em Portugal, difundindo a psicopedagogia nesses países. Foi criador de uma clínica comunitária para atender uma população carente com problemas de aprendizagem.
Visca elaborou um estudo teórico/prático sobre a aprendizagem utilizando-se de uma confluência dos achados teóricos da escola de Genebra com as teorizações da psicanálise. A esta confluência ele acrescenta proposições da psicologia social de Pichon-Rivière porque a aprendizagem, além de lidar com o cognitivo e o emocional, lida também com relações interpessoais vivenciadas em grupos específicos.
Quando Visca trabalhou na policlínica de Lanús, ele enfrentou um número considerável de crianças com dificuldades de aprendizagem. Foi esta razão que o fez pensar em trabalhar em grupos com esse público. O resultado desta tentativa foi mal sucedido. Ele percebeu que atuava dirigindo-se a cada criança individualmente, sem conceber o grupo como uma unidade funcional. A partir da constatação dessa ignorância, foi em busca de um conhecimento que o permitisse colocar em prática o seu pensamento de uma forma mais elaborada. Inscreveu-se na escola de Psicologia Social dirigida por Pichon-Rivière.
A motivação inicial do professor Visca foi o desejo de empreender um trabalho que abrangesse e unificasse o grupo como um todo. A experiência com a técnica de grupo operativo em sua formação lhe era nova, inquietante e enriquecedora. Ele pode no momento do grupo operativo se dar conta de que o que havia escutado no momento da aula teórica não era igual ao que os outros haviam escutado. Também percebeu que não queria ouvir as idéias que entravam em contradição com as suas e também se deu conta de inúmeros outros fenômenos que posteriormente pode dar nomes: inveja, admiração, voracidade, ciúmes e reparação.
O que mais marcou Visca nesta trajetória acadêmica, além do conteúdo ensinado e da técnica, foi a personalidade de Pichon: sua amabilidade, compreensão e sutileza no trato com o ser humano.
O grupo operativo consiste em abordar a tarefa, seja ela qual for, em relação ao contexto do grupo. Visca aponta como significativas para sua formação as reuniões gerais de toda a Escola onde pode conhecer e interagir com participantes mais avançados que ele, a reelaboração temática que propiciava que o grupo relesse e discutisse os conteúdos surgidos na aula e principalmente, o fato do grupo poder conviver em função de uma tarefa que implicava numa modificação dos aspectos manifestos e latentes segundo o Professor Pichón-Rivière.
A razão que tinha levado Visca a procurar a escola de Psicologia Social era fundamentalmente trabalhar com grupo de crianças com dificuldades de aprendizagem. A partir daí, começou a formar pequenos grupos. Surgiu nessa ocasião, a demanda por um trabalho no centro de saúde mental onde Visca deveria elaborar uma técnica de atendimento grupal.
A partir desse momento, instalou-se a primeira experiência sistemática de formação de uma equipe de psicopedagogos, com a técnica de grupo operativo com duração de quatro anos. Nesse período trabalhou-se somente com essa técnica que foi revisada várias vezes mediante sucessivas implementações no próprio centro do hospital. Durante estas revisões foi possível avaliar atentamente os critérios de possibilidade de agrupamento dos membros de um grupo por idade, escolaridade, estádio de pensamento e aprendizagens prévias. Os papéis da equipe de coordenação em um grupo psicopedagógico, os critérios de alta de um grupo e muitos outros aspectos, também foram elaborados.
Neste caráter e com esta metodologia surgiram os vários centros de estudo já citados, que não tiveram como objetivo formar exclusivamente psicopedagogos mas sim, capacitar especialistas relacionados aos fenômenos da aprendizagem humana.
Grupo Operativo
Definimos grupo como o conjunto restrito de pessoas ligadas entre si por constantes de tempo e espaço e articuladas por sua mútua representação interna, que se propõe, de forma explícita ou implícita, uma tarefa que constitui sua finalidade.
A teoria dos grupos operativos fundamenta-se nas idéias de Pichon-Riviére.
Nos grupos operativos “quanto maior a heterogeneidade dos membros e maior a homogeneidade na tarefa, maior a produtividade”.
Esta técnica caracteriza-se por estar centrada na tarefa, ou seja, privilegia a tarefa grupal e o caminho para obtenção de seus objetivos.
Toda situação de aprendizagem - estendendo-se a noção de situação de aprendizagem a todo processo de interação, tipo de manipulação ou apropriação do real, tentativa de resposta coerente e significativa às demandas da realidade (adaptação) - gera nos sujeitos dois medos básicos e duas ansiedades básicas: medo da perda das condutas existentes (ansiedade depressiva) e medo do ataque na nova situação (ansiedade paranóide). Os dois medos coexistem e cooperam. Para a realização de uma tarefa é necessária a elaboração dos medos e das ansiedades básicas decorrentes dessa tarefa.
As finalidades e propósitos dos grupos operativos podem ser resumidos dizendo-se que sua atividade está centrada na mobilização de condutas.
Há grupos operativos centrados na tarefa de aprendizagem, de cura de diagnóstico das dificuldades de uma organização profissional, de criação publicitária, etc.
Não importa qual o tipo de grupo operativo, há sempre sob sua tarefa outra implícita que aponta para ruptura, que ocorre com o esclarecimento das pautas estereotipadas que dificultam a aprendizagem e a comunicação, significando um obstáculo frente a toda situação de progresso ou mudança.
A transformação se cumpre nos três momentos dialéticos de tese, antítese e síntese, através de um processo de esclarecimento que vai do explícito ao implícito. A unidade de trabalho que permite a realização de tal esclarecimento é integrada pelo existente (material trazido pelo grupo através de um membro qualquer, que nesse momento cumpre a função de porta-voz), pela interpretação realizada pelo coordenador ou co-pensor do grupo e pelo novo emergente - conduta nascida da organização de distintos elementos que surgem como resposta a essa interpretação. Toda interpretação, tanto nesse tipo de grupos como na tarefa terapêutica, tem o caráter de uma hipótese elaborada acerca da fantasia grupal. Não se dirige à exatidão, ou melhor dizendo, não se avalia com o critério tradicional de verdade, mas sim em termos de operatividade, na medida em que permite ou oferece a ruptura do estereótipo.
Cone InvertidoÉ um esquema idealizado por Pichon para avaliar o movimento no interior de um grupo durante a realização de uma tarefa e seu resultado final, quando se tornam manifestos os conteúdos que no início do processo encontravam-se latentes.
O Cone Invertido constituído por seis vetores de análise também pode ser utilizado para analisar a dinâmica de uma equipe institucional bem como uma entrevista ou até uma intervenção clínica.
Visca (1987) utiliza-o também para avaliar a conduta do paciente (individual e grupal) e a do psicopedagogo podendo se medir a mudança em termos dinâmicos.
Os seis vetores são:
Esquema Conceitual Referencial Operativo (ECRO)
É considerado o instrumento de análise ideal do funcionamento do grupo como um todo e do indivíduo participante deste grupo. Vem, como unidade operacional, da Epistemologia Convergente. Este esquema é voltado para a aprendizagem através da TAREFA.
O ECRO vai sendo construído na medida em que o trabalho do grupo for se desenvolvendo e depende da história da instituição ou do grupo em si, e da contribuição individual de cada componente: com suas histórias, seus esquemas conceituais, referenciais e operativos, colocados no interjogo das relações interpessoais que aí acontecem e vão se construindo.
Como o grupo tem uma tarefa a realizar, o cumprimento dessa tarefa está intimamente ligado ao ECRO individual e grupal. O sucesso da tarefa vai depender de como o grupo consegue construir seu ECRO grupal, sua história como grupo e como interação; não desvalorizando os indivíduos e seus esquemas pessoais, mas contribuindo para que haja um a transformação e a complementação da tarefa inicialmente determinada.
O ECRO passa então, a ser um esquema de conhecimentos que a pessoa que aborda o grupo vai se utilizar como referência para sua atuação.
Observando e analisando o ECRO podemos compreender o funcionamento horizontal do grupo como um todo, e verticalmente, compreender o indivíduo que se encontra fazendo parte deste grupo. Assim podemos entender a dinâmica das situações e as dificuldades de adaptação decorrentes das mesmas e melhor coordenar o grupo.
Papéis do Grupo Operativo
Os indivíduos assumem diferentes papéis nos grupos dos quais fazem parte. Esses papéis vão sendo colocados naturalmente pelo grupo dependendo dos vínculos que vão se criando e normalmente são desempenhados pelos componentes que têm uma história pessoal que lhes permita desempenhá-los.
Estes papéis são móveis, ou seja, o indivíduo pode em determinado momento do grupo estar desempenhando um papel e mais adiante, em outra situação, estar em outro.
Líder de mudança: é aquele componente que provoca, instiga, sugere coisas novas levando o grupo a buscar algo novo, a mudança.
Líder de resistência: é aquele que, quando se sugere algo novo, tenta segurar o grupo a manter a situação anterior abrindo um espaço para a conservação.
Obs: As duas lideranças são importantes, porque é justamente no interjogo entre o novo e o conhecido que ocorrem as mudanças, as transformações e o crescimento individual e grupal.
Porta-voz: é aquele que traduz através de sua fala e de suas ações os sentimentos e as idéias que circulam no grupo, aparentes ou não.
Bode expiatório: é aquele que recebe e aceita a carga negativa do grupo, deixando-o mais leve e produtivo, já que o grupo está tendo em quem projetar seus pontos negativos.
Sintetizador: é aquele participante que consegue ouvir, perceber e captar o que se passa no grupo, expressando a síntese da discussão, integrando o que foi apresentado, mesmo que tenham surgido idéias opostas, o que quase sempre acontece.
O trabalho em Grupo Operativo é quase sempre um jogo de inter-relações, do qual todos fazem parte e ninguém é melhor ou pior que o outro. O tempo todo, mesmo sem que se perceba, há trocas entre os integrantes em todos os níveis. Analisar os diferentes papéis e sua circulação permite ao observador perceber o momento ideal para uma intervenção e sua real necessidade.
O grupo torna-se mais saudável e produtivo quando os papéis circulam, proporcionando o crescimento individual e grupal, ou seja, a realização da tarefa e a transformação dos indivíduos.
Trabalhar em grupo operativamente não é fácil, mas permite que ocorra maior circulação do saber de cada um e evita a cristalização de certos comportamentos que em outras circunstâncias impediria que a tarefa fosse realizada e que os componentes do grupo crescessem enquanto sujeitos.
Coordenador e Observador
O coordenador de grupo operativo não pode trabalhar nem como um psicanalista de grupo nem como um simples coordenador de grupo de discussão e tarefa. Sua intervenção se limita a sinalizar as dificuldades que impedem ao grupo enfrentar a tarefa. Dispõe para isso de um ECRO pessoal a partir do qual tentará decifrar essas dificuldades, propondo ao grupo as hipóteses que lhe permitam tornar-se a si mesmo como objeto de estudo e ir revelando as dificuldades que aparecem na comunicação e aprendizagem. O coordenador não está ali para responder as questões mas, para ajudar o grupo a formular aquelas que permitirão o enfrentamento dos medos básicos. Ele cumpre no grupo um papel prescrito: o de ajudar os membros a pensar, abordando o obstáculo epistemológico configurado pelas ansiedades básicas. Seu instrumento é a sinalização das situações manifestas e a interpretação da causalidade subjacente.
O observador, na forma tradicional de grupo operativo, é um elemento não participante e ao mesmo tempo em que serve de tela de projeção por sua característica de permanecer silencioso, registra material expresso tanto verbalmente como pré-verbalmente nos distintos momentos grupais. Depois da sessão grupal as notas do observador são analisadas em conjunto com o coordenador, que juntos podem repensar as hipóteses e adequá-las em função do processo grupal.
Conclusão
Percorrer novamente o estudo da técnica do grupo operativo, quando nossa instituição fez 10 anos, pareceu-nos muito produtivo e propiciador de aprendizagem. Foi interessante poder observar nossa ECRO grupal para a elaboração dessa tarefa. A própria realização do estudo e de sua síntese constituiu-se num exemplo para a maior compreensão da técnica do grupo operativo utilizada pelo grupo há oito anos. Pudemos entender mais profundamente a evolução de nossa ECRO, as resistências, os medos e ansiedades, as trocas de papéis e pensar mais intensamente nos nossos processos de mudança e de crescimento enquanto grupo, enquanto instituição, enquanto indivíduos profissionais de psicopedagogia.
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